O novo tecnofeudalismo e a ilusão da liberdade digital
- Matheus Contador Soares
- Apr 10, 2025
- 2 min read
Vivemos sob o domínio silencioso de um novo tecnofeudalismo, no qual plataformas digitais concentram não apenas capital e atenção, mas também o monopólio da verdade. A promessa inicial da internet como espaço democrático cedeu lugar a ecossistemas controlados por poucas corporações, as verdadeiras elites tecnológicas, como antecipado por Neil Postman em Tecnopólio (1994). Para ele, quem domina a tecnologia, adquire poder, e isso se manifesta hoje com clareza: redes como Meta, Google e X (ex-Twitter) moldam narrativas, filtram conteúdos e, em muitos casos, influenciam diretamente decisões políticas globais.

Álvaro Vieira Pinto, em O Conceito de Tecnologia (2005), nos convida a reconhecer que a tecnologia não é neutra: ela carrega consigo valores, interesses e projetos. Quando naturalizamos o domínio dessas plataformas como algo inevitável, corremos o risco de cair no tecnocentrismo, vendo as redes sociais como solução para tudo — de informação à sociabilidade — sem questionar seus efeitos sobre a autonomia, a verdade e a democracia.
É verdade que essas tecnologias têm potencial emancipador: conectam pessoas, democratizam discursos, permitem mobilizações sociais importantes. Mas, ao mesmo tempo, criam algoritmos opacos, promovem vícios comportamentais e concentram poder simbólico nas mãos de poucos. Estamos, de fato, pensando criticamente sobre isso?
A ambivalência é clara: as redes sociais são ferramentas poderosas, mas também instrumentos de controle e alienação. E talvez o maior risco não esteja na tecnologia em si, mas em nossa passividade diante dela. Ao transformarmos a técnica em ídolo — como alerta Vieira Pinto — corremos o risco de abdicar da reflexão crítica.
A pergunta que fica é: somos autores do nosso tempo tecnológico ou apenas espectadores encantados? O desafio não é rejeitar a tecnologia, mas reconquistá-la como instrumento humano, cultural e político — e não como novo altar de adoração.



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