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Algoritmos, Dados e Vidas..

  • Writer: Matheus Contador Soares
    Matheus Contador Soares
  • Jun 25, 2025
  • 3 min read

Ao navegar pelas redes sociais, ao curtir uma publicação, assistir a um vídeo ou simplesmente rolar a tela, estamos alimentando uma lógica econômica que se tornou invisivelmente dominante, o chamado “capitalismo de vigilância”, como define Shoshana Zuboff em seu livro “A era do capitalismo de vigilância”. Segundo a autora, trata-se de uma ordem econômica que transforma a experiência humana em matéria-prima gratuita, eliminando direitos fundamentais e implementando uma arquitetura de modificação comportamental global. Não se trata apenas de anúncios personalizados ou experiências mais fluídas nas redes, mas da subordinação da subjetividade humana a modelos preditivos e lucrativos, com impactos profundos sobre a democracia e a autonomia individual.


O que parecia inicialmente ser um avanço tecnológico, neutro e inovador, está para o mundo como uma estrutura que reforça desigualdades e concentra poder. Cathy O’Neil, ao analisar os algoritmos em sua obra “Algoritmos de Destruição em Massa”, os ADMs, coloca como essas fórmulas matemáticas, aparentemente objetivas, na verdade codificam as falhas humanas. Elas avaliam professores, classificam estudantes e decidem contratações com base em proxies de comportamento, perpetuando ciclos de exclusão, sobretudo entre os menos favorecidos. Esses sistemas não são transparentes, não podem ser questionados e operam em larga escala.


Enquanto isso, David Sumpter, no livro “Dominados pelos Números”, mostra como algoritmos mergulham em nossas vidas pessoais a partir de elementos cotidianos, como nossas amizades no Facebook. Sua análise demonstra que, mesmo com uma pequena amostra de interações, modelos matemáticos conseguem mapear traços profundos da personalidade e, muitas vezes, com mais precisão do que os próprios seres humanos. A redução de aspectos complexos da vida a números e dimensões múltiplas transforma os indivíduos em dados decifráveis, mensuráveis e, acima de tudo, previsíveis. Isso permite que plataformas como Facebook e Google operem com uma lógica de “caixas-pretas”, em que não compreendemos os mecanismos, mas somos profundamente afetados por seus resultados.


Essa lógica se manifesta com particular intensidade naquilo que o autor chama de “concurso de popularidade”. A busca por curtidas, seguidores e compartilhamentos se tornou uma nova forma de capital, um capital social que pode se converter em capital financeiro. Crianças e adolescentes crescem em ambientes onde a visibilidade se torna um fim em si mesmo, recompensada por algoritmos que priorizam o sensacionalismo e o choque. Assim, a desigualdade social se atualiza no ambiente digital, agravada por estruturas que operam sob o véu da neutralidade matemática.


O’Neil alerta que os algoritmos, por trás de sua opacidade, podem ser manipulados para causar dano ou benefício, tudo depende do objetivo que se busca com seu uso. Ela exemplifica com o Facebook, que embora pareça uma praça pública digital, é uma plataforma onde poucos decidem o que muitos verão, com riscos evidentes à verdade e à coesão social. Fake news, manipulação política e disseminação de preconceitos são possíveis graças à capacidade de microdirecionamento, como ficou claro em eventos como a eleição de Trump e o referendo do Brexit.


Em meio a tudo isso, resta ao sujeito contemporâneo a difícil tarefa de retomar sua soberania. Shoshana Zuboff nos convida a enxergar essa nova ordem como um “golpe vindo de cima”, que destitui nossa liberdade de decisão. Cathy O’Neil aponta que transparência e controle pelo usuário são possíveis, mas requerem vontade política e mudança de mentalidade sobre como usamos e regulamos a tecnologia. David Sumpter, por sua vez, nos lembra que o problema não é apenas técnico, mas também simbólico, quando não compreendemos como estamos sendo classificados, perdemos a capacidade de reagir e nos tornamos reféns da própria inteligência que criamos.


Referências

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância.São Paulo: Intrínseca, 2020

O’NEIL, Cathy. Algoritmos de Destruição em Massa. Santo André: Rua do Sabão, 2020.

SUMPTER, David. Dominados pelos Números. Rio de Janeiro, Bertrand, 2019.


 
 
 

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