A EDUCAÇÃO NA ERA DIGITAL
- Matheus Contador Soares
- Jul 3, 2025
- 5 min read
Vivemos um momento de inflexão histórica em que a presença da tecnologia não apenas transforma o cotidiano, mas redefine o modo como concebemos a existência humana, a comunicação e a própria educação. A questão “o que é tecnologia?” deixa de ser um tema restrito às engenharias ou ciências duras e passa a exigir um olhar filosófico, cultural e pedagógico. Nesse novo cenário, marcado por aceleradas inovações e pela predominância da cibercultura, é fundamental não apenas utilizar tecnologias digitais, mas compreender seu significado, seus limites e implicações sociais, éticas e políticas.
Partindo das contribuições de Alberto Cupani, Neil Postman, Álvaro Vieira Pinto, Glaucia da Silva Brito, entre outros autores, este trabalho busca refletir criticamente sobre o conceito de tecnologia aplicado ao contexto da educação contemporânea. Em vez de uma apologia irrefletida ou uma recusa nostálgica, propomos uma abordagem dialógica, humanizadora e crítica, que compreenda a tecnologia como expressão cultural e projeto de mundo.
O senso comum frequentemente associa tecnologia à imagem de máquinas, computadores, smartphones e dispositivos digitais. Essa compreensão, embora válida em parte, é redutora e superficial. Conforme Cupani (2016), a tecnologia deve ser compreendida como um fenômeno humano e filosófico, que envolve a capacidade de projetar, transformar e simbolizar. Para o autor, a técnica e a tecnologia não são meros meios neutros para atingir fins, mas sim formas de relação com o mundo, carregadas de sentidos e valores.
Tecnologia não é apenas máquina, é um produto cultural. Ela envolve a criação de métodos, processos e instrumentos que não apenas modificam o ambiente, mas afetam diretamente a forma como vivemos, pensamos, aprendemos e nos relacionamos. Entender isso é essencial para que a escola contemporânea não se limite a reproduzir conteúdos em plataformas digitais, mas se torne um espaço de formação crítica e cidadã.
O conceito de tecnologia ganha maior profundidade quando classificamos em três categorias:
Tecnologias físicas: ferramentas e dispositivos concretos, como lápis, quadros, computadores e impressoras 3D.
Tecnologias organizadoras: modos de estruturar os processos sociais, como o sistema de ensino, os modelos de avaliação e as metodologias ativas.
Tecnologias simbólicas: elementos relacionados à linguagem, à cultura e à comunicação, como a escrita, a leitura, os algoritmos e as redes sociais.
Essas classificações ampliam nossa compreensão e permitem romper com a lógica digitalocêntrica, que reduz a tecnologia a objetos técnicos ou plataformas. Na prática educacional, considerar essas dimensões permite integrar criticamente os recursos, valorizando tanto os meios quanto os processos, e reconhecendo a intencionalidade pedagógica como eixo central.
O avanço tecnológico na educação traz benefícios evidentes, como o aumento do acesso à informação, a personalização do ensino e a gamificação de conteúdos. No entanto, há riscos evidentes quando a tecnologia é tratada como solução universal, substituindo o diálogo, o afeto e a reflexão por métricas, dashboards e rankings. Esse fenômeno é denunciado por Álvaro Vieira Pinto (apud Silva, 2013) e por Neil Postman (1994), que alertam para o perigo do tecnocentrismo: a crença de que todo problema pode ser resolvido pela eficiência técnica.
Postman, em seu capítulo “O Julgamento de Thamus”, descreve como as tecnologias carregam consequências não intencionais e podem alterar profundamente a cultura de forma irreversível. Ele propõe que cada inovação deve ser julgada não apenas por seus benefícios, mas também por seus custos sociais e simbólicos. Vieira Pinto, por sua vez, denuncia a ideia de que a tecnologia é neutra ou autônoma. Para ele, a tecnologia é uma construção política e cultural — e, portanto, deve ser analisada a partir de suas implicações para a autonomia, liberdade e dignidade humana.
No campo educacional, o tecnocentrismo pode gerar práticas que substituem a construção de sentido pela simples transmissão de conteúdo, esvaziando o papel ativo do sujeito e reforçando uma lógica de consumo passivo de conhecimento. Portanto, há o alerta que o meio não pode se tornar um fim: a tecnologia deve estar a serviço da aprendizagem, e não o contrário.
Apesar dos riscos apontados, os autores analisados não propõem uma recusa da tecnologia, mas sim sua ressignificação pedagógica. Para que a tecnologia possa ser uma aliada da educação emancipadora, é necessário que esteja subordinada a projetos éticos e humanistas. Isso exige formação docente continuada, desenvolvimento de competências críticas, e políticas públicas que priorizem a inclusão digital com equidade.
A tecnologia pode ser uma ponte para a humanização, desde que inserida em uma proposta educativa que valorize o sujeito como protagonista do processo. Isso implica investir não apenas em infraestrutura e plataformas, mas sobretudo em formação reflexiva de professores, em práticas pedagógicas inovadoras e no fortalecimento de uma cultura digital crítica. A integração entre tecnologia e currículo precisa ser pensada não como adaptação técnica, mas como releitura epistemológica e pedagógica do processo educativo.
O futuro da educação aponta para um cenário de intensificação tecnológica, com o uso crescente de inteligência artificial, realidade aumentada e virtual, big data, entre outras ferramentas. Observamos que essas inovações trazem potencial para personalização do ensino, ampliação da acessibilidade e construção de experiências imersivas. No entanto, reforça que o desafio não está apenas na implementação tecnológica, mas na formação de sujeitos capazes de usá-la com consciência, ética e criatividade.
A questão, portanto, não é se usaremos ou não tecnologia, mas como, para quê e com quais princípios. A educação na era digital deve preparar as novas gerações não apenas para lidar com ferramentas, mas para interpretar o mundo, agir com responsabilidade e transformar a realidade.
A pergunta “o que é tecnologia?” torna-se cada vez mais urgente diante de um cenário em que a digitalização atinge todas as esferas da vida. Superar uma visão técnica e instrumental é o primeiro passo para construir uma educação significativa na era digital. A tecnologia, como vimos, é expressão da cultura, do pensamento e das escolhas humanas. É instrumento, mas também é linguagem, organização e visão de mundo.
Autores como Cupani, Postman, Vieira Pinto e Brito nos convidam a olhar criticamente para o papel da tecnologia na educação, evitando tanto o entusiasmo acrítico quanto o medo imobilizador. O que se propõe é uma educação humanizadora, crítica e inclusiva, que forme sujeitos capazes de compreender, transformar e se responsabilizar pelo uso das tecnologias.
Mais do que preparar os estudantes para o mercado ou para as máquinas, o papel da educação deve ser o de formar seres humanos plenos, conscientes e protagonistas de sua história. E isso só será possível quando colocarmos a tecnologia a serviço da vida — e não o contrário.
Referências
BRITO, Glaucia da Silva. Inclusão digital do profissional professor: entendendo o conceito de tecnologia. Encontro Anual da ANPOCS, 2006.
BRITO, G. S.; PURIFICAÇÃO, I. Educação e novas tecnologias: um repensar. 3. ed. Curitiba: Editora Intersaberes, 2024.
BRITO, Glaucia da Silva; SIMONIAN, Michele. Conceitos de tecnologias e currículo: em busca de uma integração. In: HAGEMEYER, Regina Cely et al. (org.). Diálogos epistemológicos e culturais. Curitiba: W&A Editores, 2016.
CUPANI, Alberto Filosofia da tecnologia : um convite / Alberto Cupani. 3. ed. – Florianópolis: Editora da UFSC, 2016.
POSTMAN, Neil. Tecnopólio: a rendição da cultura à tecnologia. São Paulo: Nobel, 1994. Cap. 1: O Julgamento de Thamus.
SILVA, Gildemarks Costa. Tecnologia, educação e tecnocentrismo: as contribuições de Álvaro Vieira Pinto. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 94, n. 238, p. 839-857, dez. 2013.



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